domingo, 21 de março de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Carta aos amantes da utilidade.
“Aquela escada, onde a Briseida estava sentada, era praticamente vazia. Ficava no fim do corredor dos segundos anos. Não passava do terceiro andar. Quando você pensava em subir para o quarto andar por aquela escada, havia uma grade impedindo. Por isso, quase ninguém usava aquela escada. Diria, até mesmo, ninguém...”, um manuscrito.
Se quiser ser útil às pessoas, seja uma escada: leve as pessoas a algum lugar, suporte ser pisado, faça com que as pessoas se esforcem ao subir para que aprendam a descer. Uma escada que não leva até o limite quase nunca é usada. Seja uma escada! Seja a escada dos seus amigos. Eleve os seus queridos ao mais alto posto e humilhe-se ao ser pisado. Seja útil na sua sociedade.
segunda-feira, 15 de março de 2010
De como as coisas ruins são boas
Certa vez, um amigo meu me contava uma história de azar. “Eu estava lá, esperando minha namorada terminar a prova. Estava impaciente, nervoso; quando ela acabasse, iríamos para o motel, teríamos nossa primeira noite. O chiclete era a única maneira de eu extirpar meu nervosismo”, de fato, até contando a história que aconteceu há muitos anos, ele demonstrava o nervosismo, acho até que ele não fazia questão de disfarçar, talvez para dar mais veracidade à história. “Ela acabou a prova. Eu mascava o chiclete mais forte ainda. Estava duro (o chiclete). Entramos no motel. Começamos a nos beijar e, quando eu desci sua barriga, o chiclete grudou em um lugar que não podia grudar”, nessa hora, fizemos uma cara de “lá?!”, “Sim, lá”, ele respondeu.
Até hoje, comentamos essa história. Se não for verdade, bem que poderia ser. Como diria um conhecido meu, “acontece, acontece”.
O motivo de eu expor essa história é que eu quero dizer: o azar é fundamental. Tudo bem, nesse ocorrido, nada, além de uma boa história, pode-se tirar, mas, na vida, o azar é importante – bem como as coisas ruins da vida. Até os religiosos – que eu considero os mais ateus – vão concordar comigo. Segundo a Bíblia, aprende-se mais em um velório do que em uma festa de aniversário. A Bíblia diz mais, cita que “é preferível deixar de ir a um aniversário para ir a um velório”. Concordo com a bíblia – humildemente-, o principal fator responsável pelo nosso fenótipo comportamental é o que acontece de ruim na nossa vida. Não que as coisas boas não sejam relevantes – de maneira nenhuma –, mas é que a poética eu-lírica das coisas ruins – um velório, por exemplo – é tão complexa que me fascina. O comportamento humano e a exposição do nosso eu/ser vem à tona nesses momentos.
Até hoje, comentamos essa história. Se não for verdade, bem que poderia ser. Como diria um conhecido meu, “acontece, acontece”.
O motivo de eu expor essa história é que eu quero dizer: o azar é fundamental. Tudo bem, nesse ocorrido, nada, além de uma boa história, pode-se tirar, mas, na vida, o azar é importante – bem como as coisas ruins da vida. Até os religiosos – que eu considero os mais ateus – vão concordar comigo. Segundo a Bíblia, aprende-se mais em um velório do que em uma festa de aniversário. A Bíblia diz mais, cita que “é preferível deixar de ir a um aniversário para ir a um velório”. Concordo com a bíblia – humildemente-, o principal fator responsável pelo nosso fenótipo comportamental é o que acontece de ruim na nossa vida. Não que as coisas boas não sejam relevantes – de maneira nenhuma –, mas é que a poética eu-lírica das coisas ruins – um velório, por exemplo – é tão complexa que me fascina. O comportamento humano e a exposição do nosso eu/ser vem à tona nesses momentos.
Além de tudo isso, se a vida fosse inteiramente um “mar de rosas”, seria sem graça. Há uma lenda grega que diz que os deuses mitológicos invejam nossa vida, porque, sendo nós mortais, vivemos intensamente, já que pensamos que a nossa última hora é a última de fato. Não acho que vivamos a vida tão intensamente assim, mas dou graças à mortalidade, pois é a única certeza que nós temos.
Não me diga que eu sou adorador do ser da foice, muito pelo contrário, nesses últimos tempos, a morte me atordoou muito, mas tenho que admitir: eu soube usar a dor para aprender senti-la. O que mais me incomoda, entretanto, é saber que por mais que queiramos aprender, mais saberemos que não aprendemos o suficiente.
domingo, 14 de março de 2010
sábado, 13 de março de 2010
Do homem que vitruviava, da mulher que ria, do estudante de jornalismo e da criança que ficou sabendo dos outros.
Certo homem [meia idade, bem afeiçoado, confortavelmente colocado no seu mercado de trabalho] andava pelas estradas privatizadas. “Não temos pedágios na ida”, dizia à mulher enquanto dirigia. De fato, não tinha pedágios na ida; o que não acontecia no caminho de volta. Esquecia-se que ele vitruviava. Teve de cumprir a simetria das ruas e, na volta, pagou o [assaltante] pedágio.
Certa mulher [velha, nem tanto por rugas, mas por idade mesmo] tomava seu café. Leu as notícias e viu que um homem tinha morrido na estrada do pedágio, numa colisão contra um carro de um estudante de jornalismo. Achava irônico ele ter morrido depois de pagar o pedágio. Riu disso bastante.
Um jovem [ainda estudante da faculdade de jornalismo] leu, em um dos seus jornais favoritos, que uma mulher que acabara de tomar o café, logo depois, havia falecido de tanto rir.
Uma criança [inocente da vida] ouviu de seu pai, sem dar importância, que um jovem estudante de jornalismo havia morrido, depois de ler um dos seus jornais favoritos, num acidente de carro.
Se um homem não vitruviasse, se uma mulher não tivesse um humor tão infame, se um estudante não lesse ou comprasse seu jornal favorito, a criança não saberia de nada.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Da ostentação à aceitação.
Vamos tentar de uma perspectiva diferente. Fui ao primeiro dia de aula do Colégio Rosário, mas não sou mais aluno de lá. Sempre quis saber como seria ver um típico “volta às aulas” de uma perspectiva exterior. E eu digo: é deprimente. Que vontade de ter minha época de Ensino Médio novamente. Ao mesmo tempo, é engraçado; todos os atuais alunos de lá que me encontravam perguntavam: “O que tu está fazendo aqui?”, e eu respondia num to de graça: “Ostentando que eu não estou mais no colégio”. Não era bem isso. O que eu queria era sentir a volta às aulas, sentir aquele clima de reencontro novamente. Isso é tão legal a ponto de não só eu – dos ex-alunos – ir à reabertura dos portões do Rosário. Bastante ex-alunos foram, e não só no primeiro dia, mas também nos que seguiram.
Há uma mágica na volta às aulas, algo que nos puxa e diz: “Vai lá ver”. Os amigos, os antigos professores, os funcionários e coordenadores, enfim... Tudo é convidativo no clima de reencontro.
Minha caixa de som
Minha caixa de som faz som, é caixa. Encaixa, na caixa do som que transmite sons de caixa, se eu quiser. Podem ser só caixas, para um surdo. Podem ser só som, para um cego. Pra mim, são os dois: caixa e som, som e caixa, som na caixa. Tão mágicos seus diversos barulhos. Tão diversificado seus vários formatos. Que figuras tão mágicas as caixas de som! Misturam dois sentidos que são tão separados, mas, por elas, são tão unidos! Queria ter sua praticidade, queria ser tão diverso, invejo sua modalidade e admiro sua obediência.
Férias: a preparação para a “correria”.
Ah férias! Logo, quando pensamos nessa maravilha de palavra, vem à mente: praia, descanso, sombra e água fresca. Mas essa imaginação fantasiosa dura uma ou no máximo três semanas. Ninguém, nem mesmo os mais vagabundos, gostam de ficar sem nada para fazer – salvo algumas exceções. E realmente tenho que concordar. O tédio mata a alma das pessoas.
Hoje fui ao meu dentista, Dr. Júlio. Um barrigudinho muito simpático, mais conversa do que fuça nossos dentes, e mesmo assim é um dos melhores dentistas da região. Ele me falava que faz muito tempo que tira férias em março. “(...) tudo vazio e sem gente se empurrando. É muito melhor. E como eu não gosto de junção de pessoas, tiro umas duas ou três semanas de descanso e sem tumulto, sem falar que é tudo mais barato”, dizia ele. Imaginemos: ele é dentista, logo trabalha por conta própria no consultório, e poderia muito bem tirar mais que três semanas de descanso. Mas não. Três semanas já está bom. Pelo menos pra ele. Então, alguma(s) coisa(s) sugere(m) que a palavra férias não é tão maravilhosa assim. Dentre várias possíveis repostas, listo uma: o tédio.
Ainda sou estudante. Estudo num colégio tradicional e muito rigoroso. Passar um ano letivo inteiro lá dentro não é fácil e não é pra qualquer um. Quando chega novembro e começa um calorzinho, todo mundo quer sair e descansar. Queremos “sombra e água fresca com um sorvete na mão”. Mas aí vêm as férias, e logo nos primeiros dias falamos com vivacidade a citação com a qual eu comecei o texto: “Ah férias!” – com um tom de prazer, quase um orgasmo. E então passa uma, duas, três, quatro, cinco semanas e falamos: “Ah férias!” – dessa vez com um tom de reclamação e meio que brochamos. Estamos acostumados e somos servos duma coisa chamada “correria”. E o oposto disso é o tédio. Ora. Se somos totalmente dependentes da “correria”, não podemos ficar sem ela, quanto mais ficar com o oposto dela. Vamos nos aprofundar um pouco mais. Estamos de acordo que, em geral, as pessoas não conseguem ficar sem a “correria” nossa de cada dia. Certo. Mas se não conseguimos ficar sem ela, por que cansamos dela no fim do ano? Bem, não sei explicar neurologicamente, mas farei uma espécie de silogismo. Um diabético não consegue ficar sem a sua insulina. A mesma comparação vale paras os que odeiam o tédio. A “correria” é a insulina do homem moderno. Querendo ou não, somos dependentes da “correria” e temos aversão ao tédio.
Férias é um tempo onde podemos descansar, colocar o cérebro em dia, nos divertir um pouco. Tudo isso para aplicar a “insulina” novamente. Por mais que o tédio machuque e o odiemos, ele é necessário cada vez mais, já que o homem moderno tem que se capacitar às novas exigências, muitas vezes utópicas, que ele mesmo o impõe, mas isso é outro assunto.
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