sexta-feira, 12 de março de 2010

Férias: a preparação para a “correria”.

Ah férias! Logo, quando pensamos nessa maravilha de palavra, vem à mente: praia, descanso, sombra e água fresca. Mas essa imaginação fantasiosa dura uma ou no máximo três semanas. Ninguém, nem mesmo os mais vagabundos, gostam de ficar sem nada para fazer – salvo algumas exceções. E realmente tenho que concordar. O tédio mata a alma das pessoas.

Hoje fui ao meu dentista, Dr. Júlio. Um barrigudinho muito simpático, mais conversa do que fuça nossos dentes, e mesmo assim é um dos melhores dentistas da região. Ele me falava que faz muito tempo que tira férias em março. “(...) tudo vazio e sem gente se empurrando. É muito melhor. E como eu não gosto de junção de pessoas, tiro umas duas ou três semanas de descanso e sem tumulto, sem falar que é tudo mais barato”, dizia ele. Imaginemos: ele é dentista, logo trabalha por conta própria no consultório, e poderia muito bem tirar mais que três semanas de descanso. Mas não. Três semanas já está bom. Pelo menos pra ele. Então, alguma(s) coisa(s) sugere(m) que a palavra férias não é tão maravilhosa assim. Dentre várias possíveis repostas, listo uma: o tédio.

Ainda sou estudante. Estudo num colégio tradicional e muito rigoroso. Passar um ano letivo inteiro lá dentro não é fácil e não é pra qualquer um. Quando chega novembro e começa um calorzinho, todo mundo quer sair e descansar. Queremos “sombra e água fresca com um sorvete na mão”. Mas aí vêm as férias, e logo nos primeiros dias falamos com vivacidade a citação com a qual eu comecei o texto: “Ah férias!” – com um tom de prazer, quase um orgasmo. E então passa uma, duas, três, quatro, cinco semanas e falamos: “Ah férias!” – dessa vez com um tom de reclamação e meio que brochamos. Estamos acostumados e somos servos duma coisa chamada “correria”. E o oposto disso é o tédio. Ora. Se somos totalmente dependentes da “correria”, não podemos ficar sem ela, quanto mais ficar com o oposto dela. Vamos nos aprofundar um pouco mais. Estamos de acordo que, em geral, as pessoas não conseguem ficar sem a “correria” nossa de cada dia. Certo. Mas se não conseguimos ficar sem ela, por que cansamos dela no fim do ano? Bem, não sei explicar neurologicamente, mas farei uma espécie de silogismo. Um diabético não consegue ficar sem a sua insulina. A mesma comparação vale paras os que odeiam o tédio. A “correria” é a insulina do homem moderno. Querendo ou não, somos dependentes da “correria” e temos aversão ao tédio.

Férias é um tempo onde podemos descansar, colocar o cérebro em dia, nos divertir um pouco. Tudo isso para aplicar a “insulina” novamente. Por mais que o tédio machuque e o odiemos, ele é necessário cada vez mais, já que o homem moderno tem que se capacitar às novas exigências, muitas vezes utópicas, que ele mesmo o impõe, mas isso é outro assunto.

Bruno Alves Ibaldo em 05 de janeiro de 2009

Texto publicado, com modificações, na edição nº 145 do Kzuka na Zero, no Jornal Zero Hora, edição nº 16.205, de 15 de janeiro de 2010.

Um comentário: