segunda-feira, 15 de março de 2010

De como as coisas ruins são boas

Certa vez, um amigo meu me contava uma história de azar. “Eu estava lá, esperando minha namorada terminar a prova. Estava impaciente, nervoso; quando ela acabasse, iríamos para o motel, teríamos nossa primeira noite. O chiclete era a única maneira de eu extirpar meu nervosismo”, de fato, até contando a história que aconteceu há muitos anos, ele demonstrava o nervosismo, acho até que ele não fazia questão de disfarçar, talvez para dar mais veracidade à história. “Ela acabou a prova. Eu mascava o chiclete mais forte ainda. Estava duro (o chiclete). Entramos no motel. Começamos a nos beijar e, quando eu desci sua barriga, o chiclete grudou em um lugar que não podia grudar”, nessa hora, fizemos uma cara de “lá?!”, “Sim, lá”, ele respondeu.

Até hoje, comentamos essa história. Se não for verdade, bem que poderia ser. Como diria um conhecido meu, “acontece, acontece”.

O motivo de eu expor essa história é que eu quero dizer: o azar é fundamental. Tudo bem, nesse ocorrido, nada, além de uma boa história, pode-se tirar, mas, na vida, o azar é importante – bem como as coisas ruins da vida. Até os religiosos – que eu considero os mais ateus – vão concordar comigo. Segundo a Bíblia, aprende-se mais em um velório do que em uma festa de aniversário. A Bíblia diz mais, cita que “é preferível deixar de ir a um aniversário para ir a um velório”. Concordo com a bíblia – humildemente-, o principal fator responsável pelo nosso fenótipo comportamental é o que acontece de ruim na nossa vida. Não que as coisas boas não sejam relevantes – de maneira nenhuma –, mas é que a poética eu-lírica das coisas ruins – um velório, por exemplo – é tão complexa que me fascina. O comportamento humano e a exposição do nosso eu/ser vem à tona nesses momentos.

Além de tudo isso, se a vida fosse inteiramente um “mar de rosas”, seria sem graça. Há uma lenda grega que diz que os deuses mitológicos invejam nossa vida, porque, sendo nós mortais, vivemos intensamente, já que pensamos que a nossa última hora é a última de fato. Não acho que vivamos a vida tão intensamente assim, mas dou graças à mortalidade, pois é a única certeza que nós temos.

Não me diga que eu sou adorador do ser da foice, muito pelo contrário, nesses últimos tempos, a morte me atordoou muito, mas tenho que admitir: eu soube usar a dor para aprender senti-la. O que mais me incomoda, entretanto, é saber que por mais que queiramos aprender, mais saberemos que não aprendemos o suficiente.

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