quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pelado

A maneira mais politicamente correta de se ficar nu é escrever. E quem dera esta frase fosse minha; mesmo não sendo, é verdade. E não escrevo com este intuito [de ficar nu], mas sim leio com este intuito [de descobrir a nudez das pessoas]. Quem, entretanto, estiver levando as minhas palavras para um passeio literal, engana-se! A nudez que eu falo é a da alma e da mente.
Blogues hoje são os grandes alimentadores desse meu fetiche. Todo mundo escreve a respeito do seu interior, das suas impressões, do que acontece a sua volta e nem todos estão sempre interessados; eu sim. É fascinante desvendar alguém, nem que se descubra o mais ínfimo dos seus meandros ou o seu mais irrelevante segredo. Mais fascinante ainda é ver que alguém que o lê consegue desvendar os seus segredos – do autor –, geralmente é mais impressionante do que fascinante.
Certa feita, numa de minhas conversas irrelevantes com meus amigos, estava a desmembrar um segredo de alguém em especial. Em contra-partida, recebi o touché quando essa pessoa defenestrou um dos meus [irrelevantes] segredos que, aparentemente, guardava muito bem. Tudo isso porque escrevo sem lembrar o que e tenho de me cuidar para não expor todas as minhas agonias aqui; além de ficar prolixo, pode-se tornar entediante [a não ser que alguém se identifique].
E eis o que as pessoas procuram num texto: identificação. Os leitores do mundo moderno, pelo tempo lacônico em que se vive, acham que só lhes interessa aquilo que os identifiquem, aquilo que vá ao encontro do que as pessoas estão vivendo. A literatura e todas as formas de textos nunca serviram a essa doutrina, pelo contrário! A literatura vem para a expansão das nossas vias de observação, de reflexão e de experiência. Se ficarmos lendo somente coisas que nos identificam, passaremos a multiplicar nossa mesma experiência e simplesmente teremos um campo de abrangência muito curto, e isso chega a me dar calafrios, talvez por que, só agora, já tenha me despido o suficiente.
Vou ter de parar para me recompor.