Se eu tentar descrever a morte, transfiguro-a numa mulher. Só um ser que dá a vida poder trazer a morte.
Sempre foi feia. Quando se casou – com o Amor, um cego da vizinhança -, estava a beirar os cinquenta anos. Por decorrência da idade, perdeu o bebê que engravidecera. Daí a frustração; assistia a todas as mulheres assistindo seus filhos, dando-lhes de mamar, paparicando-os e fazendo altos elogios que alguém com o mínimo de noção perceberia a figura clássica e fundamental da mamãe-babaca.
A frustração aumentava e o sentimento de vingança também. Se ela não pode ter um bebê, ninguém pode. Sentiu-se tão humilhada pela ostentação das mães que começou a se preparar para a guerra: enfeiou-se mais ainda, despiu-se e vestiu uma capa escarlate, deixou de cortar as unhas e os cabelos negros e, como num toque de mitologia, apoderou-se de uma foice.
Começou pelos bebês; foiçava um, outro e mais outro. Quando viu, os bebês não a saciavam mais. Partiu para as mães; foiçava uma, outra e mais outra. Quando viu, nem as mães a saciavam mais. Partiu para os pais, para os solteiros, para os animais e até para os vegetais. Tudo que tinha vida tornou-se passível da foice da Morte.
A Morte é uma frustrada, escrava de seu horário. Faz questão de trabalhar vinte e quatro horas por dia. Acha que é independente, mas somos a água que sacia a sede dela. Sabe que, se matar a todos, morre, e ela não quer ser o resultado de sua lide.
A Morte vive em função dos outros. Depende mais de nós do que nós dela. Com exceção dos agentes funerários, que dependem da ironia mais obscura: viver da morte pra viver.
Há quem creia até que ela já foi enganada por um crucifixo.
Por vezes, a Morte faz suas preliminares antes da conclusão. Fica ali, acompanhando sua vítima; beijando-a, acariciando-a, fingindo que vai matá-la, mas não mata. E assim fica brincando.
Entretanto chegará o dia em que ela acreditará tanto na sua habilidade com a foice que vai se cortar e encontrará o único destino irremediável: ela mesma. Então todos nós clamaremos pela vida dela – conforme nos ensinou Saramago [que a Morte o tenha enquanto pode].
Nenhum comentário:
Postar um comentário